Pantufas.

Após 18 anos entendi a importância do ato de chegar em casa e colocar um par de pantufa.Acordei cedo para ir trabalhar, trabalhei até as duas e engoli o meu almoço para chegar as 14:20 no meu cursinho, escapei de uma aula de química para ir para uma de alemão e me deparei com uma chuva torrencial.
Apesar da maioridade, moro no Brasil e isso significa que não tenho carro e minha carta está longe de ser tirada (afinal o meu salário não paga nem as aulinhas do CFC), consequentemente eu sou pedestre e tive que esperar a chuva parar ou diminuir, e mesmo assim eu cheguei na minha aula de alemão duas horas e meia depois que sai do cursinho(que fica a meia hora da escola de alemão).
Cheguei encharcada e com a maquilagem borrada procurando a minha mãe na escola, que me olhou com a maior cara de piedade do mundo e me trouxe pra casa, porque eu claro dramática como sempre, passei meia hora sentada no ponto de ônibus chorando porque esqueci o meu celular em casa, a luz da rua tinha acabado e a chuva não tinha parado ainda (e estava mais forte).
Mãe é uma cigana que não precisa de bola de cristal e nem tenta te extorquir quando você está passeando na Marechal Deodoro. Ao chegar em casa a minha mãe já tinha deixado uma sopa pronta – Só precisa esquentar filha! – e pantufas novas branquinhas, felpudas e com desenhos de cerejas perto da minha cama como presente por estar trabalhando (!!!), depois de um banho FERVENDO do qual o meu pai vai reclamar quando chegar a conta de luz, eu vesti meu pijama e aquelas pantufas super confortáveis; concluindo um dia no qual andei na chuva de salto alto, depois disso você entende realmente o que é colocar uma pantufa.

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Ainda bem!

Eu te ouço aparentando frieza e força enquanto você fala de medo e problemas, respiro fundo me afastando dos meus, chego até a me perguntar se eu pareço estar segura disso tudo, e se sim sinto-me lisonjeada porque uso as mais variadas máscaras em diversas situações só pra você não perceber o tamanho da imperfeição que te acompanha.

A verdade é que não sou calma, sou ansiosa e perco a paciência com frequência; não sou atenciosa, sou afobada e ligo pra você só pra certificar se está vivo mesmo, e aquele passinho que eu dou às vezes quando você esta na minha frente, nem sempre sou eu me aproximando para um beijo,  sou eu tropeçando no meu pé ou perdendo o equilíbrio e concertando o erro do jeito mais rápido que eu posso.

Ainda bem que eu só te fiz derrubar refrigerante no sofá uma vez, porque eu tenho o hábito de derrubar o que as pessoas tem nas mãos, ainda bem que eu sempre acordo antes de você e consigo arrumar meu rosto no espelho pra você não ter um ataque cardíaco ao acordar e se deparar com a minha cara de sono, ainda bem que antes dessas confissões você nem tinha percebido essas coisas.

E acima de tudo eu agradeço aos céus se você nunca percebeu que eu tenho um baita medo de me machucar toda vez que eu paro pra pensar nisso tudo, que às vezes meu pensamento vaga e eu me arrepio ao pensar como seria se eu me entregasse e me apegasse de verdade e você fosse embora, ainda bem que você ainda não percebeu que por dentro desses olhos castanhos, desse sorriso de dentinhos separados e essa grossa máscara de forte que uso, existe uma garota que tem tanto medo quanto você, que desconfia mais do que você imagina e que só não saiu correndo porque tem vontade de arriscar.

Viver é fácil…

Seria impossível pra mim começar a falar de escolhas depois que percebi que faze-las não é sinônimo de realiza-las,  escolher nada mais é do que perceber um medo, engolir-lo e agir apesar dele. Por isso é tão difícil, por isso que olhar nos teus olhos e tomar uma decisão me causa um falhar de batimentos, um acelerar de respiração e uma vontade maior de dizer ‘Deixa pra lá’.

Então ‘deixar pra lá’ parou de ser sinônimo de fraqueza afinal, passou a ser sinônimo de fechar os olhos e parar de controlar tudo, contar horas, dias, meses e anos porque na verdade, eles não servem para nada. Passou a ser um ‘deixar de pensar’.

Mas ‘deixar de pensar’ toma lugar para o que? ‘Começar a sentir’ .Sentir é perigoso, ilude sem a gente perceber e se esquiva sorrateiramente em pensamentos de modo que quando você menos espera, cai na armadilha de pensar – que muitas vezes leva a desistência – e em certas coisas, meu caro, a gente não pensa (nem desiste).

Sem poder pensar e sem poder sentir passamos a viver, e como diria aquele quarteto fantástico de cabelinhos de tigela ‘viver é mais fácil de olhos fechados’…Sem escolher, sem pensar e sem ‘por que isso esta acontecendo?’ afinal, essa pergunta passa diversas vezes na nossa cabeça e nem sempre é apenas para as coisas ruins.