Hey J!

Da última vez que eu o vi, tinha apenas alguns trocados no bolso, uma nova moça na mão e a vontade de conquistar o mundo sem muito esforço, apenas com o seu carisma que contrastava com sua fantasia montada desprovida de máscara.
Na primeira vez que o vi, a máscara ainda fazia parte da vestimenta, me intrigava e enquanto ele me analisava, era subistituída por uma nova.É um longo caminho para se conhecer alguém, a gente acha que está vendo toda a verdade, enquanto tudo o que vemos é o que quer ser visto.
Durante o tempo em que o vi regularmente, apaixonei-me pelas inconstâncias, necessitei especificamente daquele corpo, compreendi o incompreendível para aumentar o tempo de convivência; neste meio tempo vi surgir em mim um amor de carne e compaixão.
Como resultado dos fracassos carnais veio o rompimento forçado e doloroso (minha versão), e sem querer controlar o que sentia, vi a rejeição abrir as portas para o ódio perante as sinceridades que com o tempo tornavam-se mentiras.
Mas não tinha que ser assim, poderíamos tentar e você não falharia mais, pois o tempo fez com que você resolvesse alguns dos seus problemas que te colocavam para baixo, poderíamos ter conversado e dessa vez você não mentiria pois sabe que não sou ingênua a ponto de não descobrir todas suas mentiras, ou eu poderia apenas ficar aqui lutando comigo mesma para não deixar o ódio tomar lugar de onde antes houvera amor.

O aleijado.

Devo ser retardada, tratando-se apenas desse meu dom da escrita que deve ter vindo falho, aleijado, torto ou debilitado…O problema é que ele torna-se disfuncional de vez em quando por ser atemporal.
Veja bem, eu não consigo escrever sobre o que está acontecendo comigo ou a minha volta neste exato segundo, minha capacidade de palavriar sentimentos e acontecimentos só diz respeito ao que já se foi, de modo que com certa frequência eu entro nesta máquina do tempo para observar com olhos de espectador o que há 3 ou 4 meses atrás vi com olhos de personagem, essa regressão vem seguida de empatia – O que no ontem eu ainda vejo hoje?- que vem seguido do que você lê.
Em consequência disso, estou sempre uma fase atrasada, escrevendo sobre paixões quando elas estão acabando, fins quando estou vivendo novos começos e novos começos quando estou vivendo os meios.
Meu dom da escrita veio aleijado, mas ele ainda me permite expressar o que ficou preso nas paredes do meu cérebro, me serve muito bem nas madrugadas insones e se eu pensar bem, não é tão disfuncional assim.

Espera(nça)r

Nunca fui boa em esperar, filas de banco me inquietam, salas de espera de consultório me desesperam, e o trânsito é quase uma setença de morte para mim!

Irônico como nós desaprendemos a esperar ao longo da vida, antes de vivermos nesse mundo tivemos que esperar 9 meses para sentir o ar entrando em nossos pulmões pela primeira vez, e hoje temos arrogância o suficiente para acharmos que o mundo deve nos dar tudo quando bem entendemos, ignorando assim, a ordem do universo. E se a lua nova de hoje decidisse que é vital pra ela mudar para lua cheia amanhã? Será que a força maior que rege o mundo daria a esse astro o luxo de pular todas as outras fases para ser aquela mais bonita? Imagine se o mundo decidisse que as sementes que caem no chão hoje tornarão-se todas árvores amanhã sem excessão alguma, por onde nós iríamos andar?Porque o mundo não quer mais esperar pelo tempo que leva a germinação de uma semente, ele não quer esperar 150 anos para ver o fruto das mais belas árvores.

E se essa força que rege o universo desse a todos nós o que pedimos de coração em meio as nossas orações por um dia? O que o mundo se tornaria?Por minha parte, ele aceleraria um processo que tem que ser lento para ser perfeito, causando uma ruptura definitiva no que hoje é apenas uma ruptura provisória, enquanto todas as partes que não cabem somente a mim se encontram. Com certeza muitas pessoas ganhariam na loteria, muitas morreriam somente no dia seguinte, algumas morreriam desnecessariamente no instante em que todos os pedidos fossem feitos.

A nossa existência inteira depende desta capacidade que foi a primeira que nós obtivemos na vida, e quem hoje espera aceitando as fases da vida chegarem  no momento certo transforma todos os sentimentos  que foram ponderados em belas labaredas de chamas que destroem o antigo ser e mostram uma nova pessoa, alguém que sabe que por mais que pareça nós não podemos controlar nada, e tudo o que podemos fazer mediante as nossas crises é meditar e pedir luz para que no momento certo, as labaredas venham para romper velhos padrões.

O (errado) cara.

Não, eu não tenho tentado te exorcisar, porque te esquecer e deixar para trás é sinônimo de apagar o seu caminho de volta, e qual seria a razão de ter feito tudo o que eu podia imaginar, se não vou ter tudo o que imaginei no final? As vezes me pego acordando no meio da madrugada lembrando do seu toque e me perguntando onde eu errei, na maioria das vezes perco a respiração e peço baixinho pra Deus te trazer de volta, porque o que estava ao meu alcance não foi o bastante, e você mudou diante dos meus olhos me deixando pra trás com mentiras sinceras…Adormeço com essas lembranças, em meio às minhas preces incansáveis e esperanças.
Em um mês, seus olhos verdes tranquilos passaram a transmitir desespero ao invés de segurança, medo de se prender, de falhar mais uma vez, de se machucar e me machucar…Eu absorvi seus medos, transformei na minha segurança e cada dia mais eu tentava te dar força, na medida que me aproximava, você me afastava e repentinamente começamos a dançar tango com passos tão bruscos que as máscaras mal se sustentavam, quando elas caíram revelaram o que nossos olhos não podiam dizer, eu gostava de você sem medo, você temia e lutava para não gostar, fugiu.
Desde então, entro com certa frequência em um combate entre sofrer e procurar novos meios de te ter aqui, é desgastante me entregar ao sofrimento depois de ter fugido dele por tanto tempo, antes de cruzar o seu caminho eu me encontrava quase em um coma emocional, nada mais me afetava, nada mais me diferenciava, e eu era feliz assim…Mas foi aquele beijo que despertou tudo que havia adormecido em mim, e eu tentava fingir que não existia mais, mas você me afetou, o seu corpo ao meu lado, os seus lábios, o seu sussurro, seu abraço, suas palavras e sorrisos…Tudo acabou por me vencer.
No entanto, você ainda passou por cima de mim como um caminhão-cegonha em cima de um pedestre desatento, injustiçou-me como um assassino ao atirar em um recém-nascido, você esperou que eu te reerguesse pra me jogar em um poço fundo, sem dó e nem piedade, junto com outras pessoas que você difamou na minha frente, e diante à minha surpresa quanto a sua crueldade, você me avisou que não salvaria nem a mim, e nem a ninguém mais.
Um mês depois te vi jogar uma corda pra tirar uma das vítimas que eu mais tive pena, era ela que você tinha usado e depois sumido, não? Não foi ela também, que você me deu como exemplo pra dizer que eu não seria salva? Diante de tamanha injsutiça eu só pude olhar pra cima, encontrar seus olhos e suspirar, deste buraco eu não saio sozinha e aparentemente você é o único com uma corda nesse mundo, e não pretende me libertar desse lugar tão cedo.
E nesse acidente fatal, é uma pena que você tenha saído ferido, enquanto eu que sempre fui a melhor de nós dois, morri, e depois de tudo isso, eu ainda não tenho a capacidade de te exorcisar, sair do mundo que você criou e apagar os meus passos para você não me encontrar nunca mais, entretanto preciso sair de você para conseguir me encontrar novamente em mim, pois apesar da sua inconstância, você não vai mudar, afinal mais te preocupa corrigir erros passados do que não cometer erros futuros.