Nenhuma história tem fim.

As vezes tenho a impressão de que esse costume de matar o passado e não olhar para trás é só meu. Olhe em volta, todo mundo voltou uma hora! Aquela moça sorridente de mãos dadas demorou um ano e meio para perdoar uma traição, e voltou porque percebeu que ninguém mais faria carinho nela até cair no sono, isso é o gosto do moço que está ao lado dela.

O casal de idosos ali, sentado no banco da praça ao anoitecer viveu a vida toda separando e voltando porque a história que foi construída valia mais do que construir uma nova história, com todas as suas complicações e dificuldades. Eles já viram seus filhos casarem e terem netos, já secaram lágrimas da filha mais velha no primeiro divórcio e do filho mais novo no primeiro termino de namoro, certas coisas trouxeram novas reflexões pra eles.

O homem sentado na mesa do terceiro bar do dia não aprendeu a perdoar, ele toma sua pinga e joga sua sinuca remoendo dores que não é mais capaz de consertar, sente raiva, sente-se frio, vê que tem uma boa moça a sua disposição…Mas ela traz a tona tantas memórias! E ali está ela conversando com as amigas, preocupada com seu coração e com o fato de que o passado virou presente e o presente virou nada, ela liga pra ele e o telefone já não toca mais, ela respira fundo e não sabe o que fazer.

Em toda a história existe a opção de voltar a trás, do passado virar presente, do presente virar passado e do nunca virar futuro, nenhuma história tem fim.

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Crônicas de um bistrô: Café e Poesia.

As paredes possuíam pequenos quadros com fotografias antigas espalhadas, o charme da decoração eram as molduras muito bem esculpidas de cor escura contrastando com as paredes amareladas onde se viam buracos expondo os tijolos daquele pequenino bistrô, escondido entre o prédio imponente da prefeitura e uma empresa multinacional de onde saiam pessoas bem asseadas o tempo todo, era o refúgio especial de Michelle uma moça da Zona Sul do Rio de Janeiro que cansada de se queimar na praia do Leblon foi pra São Paulo tomar novos ares e sentir a garoa.
Pelo menos foi o que ela me disse quando a conheci, uma tempestade arrastava tudo o que estava na rua e eu tinha me esquecido da droga do cavalete anunciando que o café expresso seria de graça para quem colaborasse com um livro, faziam dois ou três meses que estava trabalhando no bistrô da minha mãe que sofrera um acidente de carro no dia da formatura do meu irmão em medicina e não podia trabalhar.
Michelle entrou com o cavalete na mão enquanto eu hesitava em ir lá fora na chuva novamente para pegá-lo, ela era linda. Sua pele bronzeada foi a primeira coisa que me chamou atenção, o vestido era claro e estava colado em seu corpo de curvas suaves e esguio, seus olhos verdes encontraram os meus e ela sorriu daquele jeito de mulher quando quer conquistar algo pelo seu charme:
– Você esqueceu o cavalete lá fora.
Peguei o cavalete da mão dela e ofereci um café pra compensar a quantidade de chuva que ela tomou pela minha distração.
– Aceito se você tomar comigo, o que tem lá em cima?
– É um projeto de biblioteca livre, pode subir pra conhecer, não tem muita coisa porque pouquíssima gente doou algum livro e muita gente já levou embora, mas é um lugar bom pra tomar um café e pensar…
Ela sorriu pra mim e subiu a escada em silêncio, preparei o café enquanto cobrava a conta de um casal de chineses que estava há horas tomando o mesmo café, subi pra levar o café e encontrei Michelle sentada em uma cadeira antiga de madeira com um acolchoado vermelho que costumava ser da minha avó, ela lia Sagarana de Guimarães Rosa e parou a leitura para agradecer pelo café:
– Vou te atrapalhar se insistir para dividir o café comigo?Preciso conversar com alguém, acabei de me mudar e não tenho ninguém por aqui.
Fiquei surpreso com a naturalidade que ela expressava a sua fragilidade, pedindo para conversar com um estranho em um lugar que como ela mesma tinha dito, não conhecia ninguém. Me sentei ao lado dela e tentei ser amistoso;
– Claro, não tenho mais clientes e com essa chuva provavelmente não vou embora tão cedo…Você vem de onde?
E foi ai que começamos a dividir nossas histórias, ela me contou que precisava de novos ares e por isso largou o Rio de Janeiro e veio pra São Paulo, ela se sentia muito sozinha morando com uma colega de trabalho e seu gato, era angustiante se adaptar ao novo ritmo de vida sem ter em quem se apoiar. Confesso que não prestei atenção em quase nada do que ela falou sobre o lugar onde morava aqui em São Paulo, os olhos dela me roubavam a atenção, o movimento dos seus lábios, o cabelo ainda úmido tomando forma enquanto secava, queria encostar nela e não achava uma abertura…
– Você não está me ouvindo!
Pisquei rápido, saindo do transe que entrara sem perceber, tentei disfarçar rindo dela e dei um gole no café – eu estou te ouvindo, minha amiga – nossos olhares se encontraram e meu telefone tocou, era meu pai e decidi ignorar, acabei por ver que haviam se passado 4 horas desde que eu subira pra conversar com essa mulher e já deveria ter fechado o bistrô, me levantei sentindo como se a realidade repentinamente tivesse voltado a minha vida.
– Eu tenho que ir embora! – Ela disse levantando repentinamente e pegando a bolsa antes que eu pudesse imaginar algum modo de ficar mais tempo sozinho com ela – Não tenho a chave de casa e a minha colega dorme cedo! Quanto lhe devo do café?
– Não deve nada, você pode ficar se quiser eu te levo em casa, ou…Não sei, tem um quarto vago na minha…
– Não, obrigada. – Ela passou por mim um pouco rápido, desceu as escadas e saiu do bistrô. Eu fiquei no pé da escada olhando pra porta de saída, imaginando o que diabos eu tinha feito para ela se fechar rapidamente e fugir de mim. Mulheres são a materialização da incoerência, com todo esse charme e fuga! Eu decidi me abstrair da Michelle e lavar a louça para fechar o bistrô.
Enquanto lavava a xícara dos chineses me veio uma imagem na cabeça, como se fosse em um filme francês vi Michelle andando nas praias do Rio, com aquele chapéu gigantesco que as mulheres usavam antigamente, alguém a chamava e ela sorria.
– Rodrigo?
No sobressalto derrubei a xícara que estava em minhas mãos, era Michelle novamente. Ela riu desconcertada do meu susto e colocou um livro no balcão, era o livro de Poemas de Cecília de Meirelles.
– Desculpa o modo que sai, queria te compensar pelo café, então fui na livraria e achei que seria um bom livro para você deixar pros clientes.
Peguei os cacos do chão tentando pensar em algo para dizer além de “obrigado” mas nada veio, joguei no lixo a xícara que quebrei, peguei o livro e um guarda-chuva e fui andando até a porta.
– Vamos Michelle, eu te levo em casa.
Ela não me deixou levá-la, quando cheguei em casa fui folhear o livro e vi que tinha um número de telefone no marcador de páginas com o nome dela escrito em cima, do outro lado do marcador ela anotou o número da página com um poema que fez todo o sentido para a minha visão de Michelle, eu não liguei pra ela naquele dia, nem no seguinte, nem no outro…Na verdade demorou quase um mês para eu sentir a necessidade de ligar pra ela porque daquele dia em diante Michelle seria uma parte estável da minha vida.

Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1942-1959)’ “.