A carniça, o carrasco e os abutres.

  • Em maio bateram em manifestantes em grandes capitais brasileiras São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro se tornaram o tempero de uma grande panela de pressão, vinagre e spray de pimenta com sangue de militante.

    – O tomate estava caro, a passagem aumentou.

    Espírito antiditadura foi a rua, de branco e pacifista, sem bandeira e sem vandalismo – sem ação, só espetáculo. Tomou pau quem não cantou o hino nacional, alguém viu que um filho teu não foge a luta mas não deixou de mandar matar o aviãozinho do tráfico, alta periculosidade medida na pele, na cor, na casa, no bairro sem asfalto, sem paz e sem pátria amada.

    – Tem que matar tudo mesmo.

    Tem que matar a todos e andar com tênis da Nike, usar Natura e contribuir com o meio ambiente publicando fotos no Instagram direto do iPhone que veio da China. O juiz sentenciou a pena, eram apenas 8 anos, se tornou uma vida toda, quem saiu morreu, quem não morreu voltou, quem não voltou foi pra rua.

    – Mas corrupção agora é crime hediondo.

    O regime é aberto pra quem nunca teve cerceamento de liberdade ou cheque especial, a autocracia burguesa leva o povo no papo mole, passa o que quer, passa quem quer, só não passa o negão porque esse ficou enrolado no enquadro que a PM deu e botou 1kg de maconha para incriminar o cidadão, a mídia estava lá e todo mundo viu, na marca da pele havia uma sentença. O irmão estava preso por latrocínio, só Deus sabe como saiu, no dia que botou o pé pra fora houve de tudo: Pastor para trazer a redenção, médico para medir a circunferência da cabeça, psiquiatra para levar para um novo tratamento inovador, e seis meses depois o policial para levar ao paraíso.

    – Foram 12 tiros, ninguém sabe o porquê, ninguém viu nada além daqueles policiais que o seguiam de vez em quando.

    O povo aplaudiu, os abutres todos filmaram a carniça que se formou no mundo todo, ganharam dinheiro em cima do traficante, do estuprador e do pai de família que roubou um frango, privatizaram a prisão e levarão um pouco mais de liberdade, de um pouco mais de gente insana que de tão inserido nesse mundo se rebela e devolve em labaredas descontrolada a injustiça que recebeu.
    E enquanto isso é lá no morro que tem toque de recolher que a mãe de 4 filhos se recolhe, o primeiro marido era policial e o traficante o matou, o segundo marido era traficante e o policial o matou. A quem vamos proteger? Por quem vamos gritar? As 4 crianças não tem pra onde correr, a mãe não consegue o que dar de comer e os roubos aos mercados são constantes.

    – É preciso tirar a arma da população.

    E enquanto você anda desarmado, a vida se transforma em um polícia e ladrão no qual os jogadores escolhem através do acaso quem vai ser o café-com-leite, não saia a noite, não corra de dia, cuidado com o tabaco e a maconha porque tudo que faz fumaça incrimina. E o adolescente com o brasão da PM é assassinado em tiroteio, uns dizem que foi a polícia, outros dizem que foi o ladrão, a mãe dele não quer saber.

    – Tem que pagar.

    Tem que pagar a conta e a prestação do caixão, tem que prestar contas a justiça e depois a Deus, que Deus é esse minha senhora que levou seu filho, seu marido e permitiu que a violência continuasse? Eu não sei te responder, só sei que desde o início de tudo só existem duas explicações.

    – O bem, o mal e o culpado.

    Vamos restaurar tudo, vamos isolar os culpados, encarcerar os loucos e os assassinos, vamos perguntar de onde vem a loucura, vamos pintar parede e quadro para ver se salva, vamos fazer sarau no morro, vamos levar o menino para a escola, vamos salvar o mundo! Vamos lutar pelos direitos humanos!

    – Direitos Humanos de quem?

    Pela última vez, o negro, o maconheiro, o morador de rua e o que não fez nada e nem nasceu no lugar errado virou carniça no rio Tietê, pela última vez o carrasco soltou a foice de fogo e levou mais um e pela última vez, durante os gritos de dor a os abutres estiveram lá registrando e trazendo sua pauta.

    UMA
    ÚLTIMA
    VEZ.