O choro do impeachment

O discurso (de Dilma, no dia 12/05/16) que me fez chorar não pelos motivos que aleatoriamente a direita coloca como nosso norte, mas por entender na pele que tantos direitos que tenho hoje são frutos de outras pessoas e lutas passadas.
Eu tenho 23 anos e me lembro de quando o salário mínimo era de R$250,00, lembro-me do preço dos ônibus que eu quase não pegava, lembro do valor de desconto da escola particular na qual eu era bolsista integral.
Eu me lembro dos meus pais investindo fortemente na minha educação para que eu tivesse uma condição melhor que eles, lembro de quando o Lula ganhou em 2002, uma amiga da minha mãe vociferava com um ódio que eu não entendia dizendo que “aquele nojento do Lula pegou a faixa do FHC e seria o fim do país”.
Ironicamente foi essa amiga da minha mãe que me ensinou o que era traição em tantas maneiras que as boas lembranças que tivemos ficaram amargas.
Lembro da minha amiga negra que era filha de pais petistas e o tanto que ela estava feliz, eu não entendia…Eu tinha só 11 anos e amava as aulas de história, onde meu professor me ensinava a olhar as gravuras e questionar, entender o tempo que dizia respeito a elas e como era a sociedade.
Inclusive foi na aula de história que aprendi a pirâmide social, e como a igreja, a nobreza e depois e a burguesia sempre estavam acima da maior parte do povo, os trabalhadores, os escravos, os servos. Foi na aula de história que aprendi a guerra e como ela é horrível, como a ditadura, canudos e a guerra do Paraguai foram sombrios, como o nazismo (com o qual parte da minha família compactuou na guerra) dizimou milhares de pessoas.
Eu cresci pra entrar na USP. Tentei duas vezes, não consegui e entrei na UNIFESP pelo ENEM. Fui o milagre do ENEM.
Quantos anos de cursinho eu teria que pagar se não fosse o REUNI?
Na universidade aprendi a luta e a perseguição política mais do que em qualquer espaço que já vivi – o escoteiro, os movimentos sociais de SBC – recebi uma carga de informação que nem os professores dedicados do Ensino Médio, nem o Punk conseguiram me passar quando eu tinha tempo livre.
Eu amadureci.
Eu achei que era fácil o salário subir para R$880,00 em 13 anos, que era lógico que meus pais aos 40 anos teriam a casa própria – e que desorganizados financeiramente! Não conseguiram aos 30 por que? – que já era tempo de termos essa Política Nacional de Assistência Social, que os direitos trabalhistas eram perpétuos, que o SUS ter sido ampliado era um caminho lógico de evolução.
Eu achava que até faxineiro de universidade pública era concursado.
Então hoje eu chorei, porque eu cansei das injustiças, porque perdoa mãe, eu vou ser assistente social e lutar contra as opressões de classe porque escolhi um curso no qual eu estudaria Marx e atuaria contra os absurdos da prisão para as mulheres que são mães.
E eu sei que se houver perseguição política, serei eu e meus amigos, amores e alguns familiares que iremos para a prisão sem motivos, mas o que é isso? O que é um tiro na cabeça sem nenhuma explicação, se isso ocorre diariamente na periferia? O que é um impeachment sem crime do que algo mais público do que vejo no cotidiano.
Onde tanta gente cai na injustiça, pelos interesses de uns…
Chorei porque não sei lutar e nunca acendi um molotov.

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