Sobre 21. P. I

Eram 21:40 e eu me olhava no espelho da faculdade os olhos cansados e o corpo dolorido pediam desesperadamente por um descanso, enquanto olhava meu reflexo notei um cachinho solto do meu coque feito por falta de tempo para arrumar o cabelo antes de sair. Talvez fosse um que sobrou dos penteado de ontem, muitos cachos grandes e uma flor pra segurar uma parte esquisita do meu cabelo, mas aquilo me fez lembrar outra peculiaridade do meu cabelo de 7 anos atrás.

Há 7 anos meu cabelo era vermelho impossível de ficar bonito depois que saia do salão porque eu tinha uns fiozinhos insistentes que ficam virados para fora na altura da testa, percebi depois de um tempo que era de família (cerca de um ano depois, porque assim como minha prima Cassiana, as gêmeas também tinham), depois comecei a achar que eram hormônios porque todas as minhas amigas adolescentes tinham.

E na minha vontade de dormir as 21:40 eu me lembrei dos 7 anos anteriores a esse, desde as noites que eu me emburrei porque não queria dormir as 22:00 pra ir pra escola, até aquelas em que virei para poder ir pra faculdade no dia seguinte sem me prejudicar tanto, lembrei das viagens para visitar minha família no interior e como achava que aquilo seria algo frequente, lembrei de conversar sem jeito com meu avô que se foi e com meu amigo que também faleceu nesses últimos 7 anos, me lembrei de amigos intimos que agora são pequenas memórias e do desespero por encontrar amor em tantas pessoas.

Hoje eu percebi que está tudo mudado, eu estou seguindo um projeto de vida bastante ambicioso, tenho um ótimo namorado que culminou de ser um que me conhece há 15 anos, tenho novos amigos que em 2 ou 3 anos me ensinaram muito e cresceram muito comigo, tenho uma amiga maravilhosa que é uma artista nata que eu conheci na porta da diretoria da escola com uma camiseta de banda “emo”, tenho amigos tão antigos que vão passar um tempo fora, amigos não tão antigos que decidiram ficar mais perto, amigos que se envolveram com o crime, amigos que estudam crime, moda, comércio exterior, ser mãe, ser pai, me chamam para ser madrinha de casamento, me chamam pra formatura, me enviam livros, tccs, teses, chocolates de suas pequenas fábricas…

São 21 anos, sou quase um bebê e continuo fazendo manha porque quero dormir.

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Embargo

Estão querendo me colocar tanto embargo nessa vida, limitar o que eu faço pra viver, criticar meus ideais, dizer onde ando e com quem ando, tentam embargar as bebidas e as drogas, as comidas gostosas e as noites de prazer.
Devem estar atrás da minha liberdade, do meu coração grande que saltita a todo estante, podem estar atrás de você, trazendo novidades da minha vida que eu nem sei, me transferindo de caráter e nomes que eu nem entendo a quem se refere.
Ser manchete popular é pra quem tem pouca carne dentro da cabeça, que faz e mostra, espera aplausos e admiradores ao seu redor, mas todos os dias as manchetes vêm pintadas de sangue, seja na boca dos jornalistas ou nos olhos do povo…
Tenho a impressão de que embargaram o amor através da incitação e validação da violência, com ela embargaram a simpatia e hoje em dia ninguém acessa ninguém a não ser através de comunicação alternativa, subversiva, incolor.

Resolução I.

Vou recuperar todas as saudades.
As pessoas que ficaram jogadas por ai,
nas palavras do meu esquecimento,
em alguns milésimos de memória.

Não estou dizendo que vou ser 
educada
falar com todos e não esquecer 
nada.

Eu só vou recuperar afetos perdidos
porque esses novos são uma merda.

Essa moça tá diferente.{continuação de “A moça”}

Tenho quase certeza que a vi passar o cabelo castanho até as costas com a mesma franja alta, a inconfundível saia azul marinho com flores coral (sua cor favorita) se moldava as suas pernas conforme o vento batia trazendo a maresia e areia da praia.

Mas algo estava diferente, era o brilho no olhar, o sorriso bobo nos lábios e o tom da pele que parecia mais rosada e não tinha como ignorar ou fingir que não era ela, era a moça, aquela moça que da vida trazia amargura, que os pés se mexiam em uma milonga, que andava de lábios vermelhos de batom.

– Moça, o que há de novo? Resolveu aquele problema?

Ela me olhou na defensiva e suas mágoas se revelaram novamente, Legião Urbana faz sentido quando olho nos olhos dela nesse momento. Mas a resposta é num tom novo, sorridente e brincalhona, sempre pra frente ela me responde que aquele problema não existe mais, que cansou de procurar agulha em palheiro esquecendo que tem uma agulha nova e muito boa em casa, me diz que tem um homem daqueles que te faz entender o “felizes para sempre”.

– A cada momento que avalio a minha vida, vejo que sempre tive aquilo que precisava para ser feliz! Todos os problemas que criei me prenderam em relacionamentos (auto) destrutivos repetidamente, até quando decidi virar dona de mim por completo, usei na minha vida uma peneira, para quem não presta não passar, e fui atrás de um amor antigo pra poder compartilhar tudo que tenho dentro de mim, assim como o que conquistei. Desculpe-me se falei demais, é que eu estou feliz!

Entrei no ônibus em lágrimas. Não pelo desejo que sentia por ela, mas porque eu sabia que ela seria mais uma que passaria a sambar escondido e faria todo mundo falar, sempre soube que ela seria dessas que arrancam suspiros a vida toda mas se dedica a um homem só, e lá está ela com todo esse jeito feliz que afirma o abandono da faceirice desnecessária sambando com um homem que não vai mais a deixar ou fazer colocar a vida em cheque, ela achou o homem dela e eu encontrei meu egoísmo.Ela nem suspira mais, só sorri enquanto eu choro.

Lari vs Tempo

O tempo passa, mensagem, o tempo não passa, mensagem, o tempo pára, mensagem, o tempo não está passando!!!(mensagem)

– Relógio, relógio faça o favor de trazer o óbvio! Se o tempo não respeitou meus planos, que pelo menos tenha a decência de acelerar para que eu sufoque minha ansiedade.

Ando a noite, pra ver se o tempo passa e uma coruja cruza meu caminho, a gente se encara mas o tempo não passa,

– Cazuza você estava mentindo! O tempo pára sim!

Minha mãe não pára de falar, o tempo não trata de passar e eu não quero mais viajar.

Passa tempo, passa!!!

 

De dentro pra fora. (em abril de 2012)

Não é necessário ter muita habiliade pra me dar conta de como (quem) sou, tudo o que represento, ajo e apresento é o fruto de 18 anos e meio de experiência. A fala acelerada e demasiada, a figura arrogante, a vulgaridade, a inteligência…Tudo se apresenta como uma ferramenta de defesa do mundo que me joga pedras e flores frequentemente; nunca precisei de aplausos para prosseguir, quando eles vinham eu recebia com sarcasmo, porque sempre foi depois de errar 777 vezes, e nada dói mais o meu grande ego do que me recuperar de um erro e tentar novamente.

Em certos momentos me vejo tão fria e agressiva quanto Messalina, me encontro no ponto de bifurcação entre Scarlett O’Hara e Audrey Hepburn, mas sem comparações, ao longo da vida me tornei cria de mim mesma, clone e influência da única pessoa que pude conhecer por completo, e até hoje me da muito trabalho: Larissa Rodrigues Zaqueo.No entanto me sinto inclompleta nesse meu autoconhecimento, tão incompleta que atendo apenas por uma parte do meu nome: Lari, e mesmo assim já existem mil particularidades nessas duas sílabas, porque para me diferenciar de outras Laris, eu uso meu último nome: Zaqueo.

A partir daí temos LariZaqueo, duas palavras em uma, três partes de uma pessoa só e mil conceitos entrelaçados, todos complicados demais pra quem não tem tempo para si mesmo, mas como diria Guimarães Rosa: “Quem se evita, se convive”, suspeito que para gostar de mim, você vai ter que me conhecer de dentro pra fora, no sentido contrário da nó porque sou máscara e mascarada, e são muitas máscaras para uma mascarada.

Prolongar

Estou abrindo mão dessa mania de prolongar as coisas.

Talvez uma noite divertida era só uma noite divertida, aquela intervenção divina  pela qual pedimos de vez em quando para que as complicações mundanas não nos enlouqueça; atendendo aos nossos pedidos Deus nos da um beijo, e não é o tempo que dura esse beijo que o faz inesquecível e sim o momento em que ele se materializa.

Apesar disso, tenho essa mania de tentar repetir, prolongar, voltar atrás…Mas parece que quanto mais energia gasto, mais percebo que aqueles bons momentos são cenas congeladas em minha mente, como a primeira vez que ouvi “Você deveria namorar com ele” da minha mãe há 12 anos atrás, ou o dia que fiz uma piada ao mesmo tempo que uma outra pessoa e me apaixonei ao encontrar o olhar dele, ou o momento ridículo em que vi meu último ex-namorado ir embora com um sorriso na cara enquanto eu segurava minhas lágrimas, ou o beijo que me tirou da pior fossa pós término, me fazendo acordar no dia seguinte e ler Foucault comendo lasanha do meu pai.

Enfim, posso listar muitos momentos sem explicar o porquê de falar nisso, mas é que o amor ainda aparece no perdão e na esperança, porque quis prolongar uma noite fugindo dos meus sentimentos mais profundos e vi que o coração partido decidiu perdoar, que um casal tão bonito voltou se amar e que eu, talvez por falta de sincronia, talvez por esperança e vontade de prolongar um momento tão pontual (na verdade, um conjunto de momentos com uma pessoa só, que hoje em dia apontam para onde eu cheguei) continuo sozinha e tentando me libertar de algo que eu não sei o que é.